Egon Schiele é um dos meus artistas preferidos. A morbidez da sua obra suscita em mim um desmesurado interesse e fascinação. Aqui fica um excerto de um trabalho meu, que realizei para uma cadeira (Arte do Século XX).

“Your powerful artistic originality at first repels,
all the more later to captivate …”
Heinrich Benesh escreve a Schiele após conhecê-lo em1910[1]
De entre a vasta produção artística de Egon Schiele[2], existe uma temática que se sobrepõe a qualquer outra, o Nu. O seguinte trabalho pretende tratar esta mesma temática abordando o contexto em que normalmente surge, erótico e sexual. A escolha da análise temática em detrimento de uma única obra recai no facto de Egon Schiele, no início do século XX, ter sido um dos primeiros artistas a introduzir de forma directa, explícita, e provocatória conteúdos sexuais nas suas obras ditas acabadas[3], e como tal causar escândalo nos meios mais conservadores.
A nudez, a masturbação, o lesbianismo, em suma, aquilo que era considerado obsceno e um atentado ao pudor, são temas que de uma maneira visceral surgem nas obras de Schiele e nos remetem para um universo recôndito da mente humana.
Egon Schiele toma por palco a exploração desta temática sem a utilização de metáforas ou subterfúgios, mostrando-nos a realidade, sem a atenuar com decorativismos e sem a mascarar com cores garridas, denunciando a corrupção de uma sociedade hipócrita e decadente, que inconscientemente caminhava para a guerra. Schiele transpunha para o papel a sua visão de um mundo que já se encontrava em avançado estado de decomposição.
Quase num acto de banalização, as obras de Schiele mostram corpos nus em poses extravagantes e caprichosas onde certos aspectos são exagerados e a cor não obedece a nenhuma convenção académica. As figuras surgem descentralizadas e como que suspensas num espaço envolvente inexistente, reforçando o seu papel como paradigma máximo de importância na obra.
A sua pintura é avassaladora, imponente, enervante e excitante – como um acidente do qual não conseguimos desviar os olhos – se num primeiro momento a sua aura carismaticamente incomodativa nos repele, é a mesma que posteriormente nos cativa inebriantemente e à qual sucumbimos sem lutar.
[1] KALLIR, Jane – Egon Schiele, The complete Works. Harry N. Abrams: New York, 1994.
[2] Cerca de 200 pinturas e 2000 desenhos
[3] Alguns artistas já haviam, anteriormente, realizado esboços e esquissos de corpos nus, mas nunca os introduziram nas suas obras finais e apresentadas ao grande público, como por exemplo Rodin, Degas e Klimt. Vide Werkner, 1994.