Thereis a popular notion that a photographer is a voyeur, but i wasn’t crashing. This was my party. The photographs were my way of remembering what had happened the night before. Taking pictures aloud me to be in control and out of control at the same time. They became my memory. (Nan Goldin – BBC – I’ll Be Your Mirror)
A intimidade humana pode estar entre alguns dos temas mais difíceis de capturar fotograficamente, mas é um dos temas principais do trabalho de Nan Goldin. Esta concentrou a sua lente nas relações pessoais dos seus pares imediatos, incluindo amigos e amantes.
Por vezes, esta procura de intimidade através de imagens, comprometeu algumas dessas relações, mas por outras revelou estas relações com uma extrema e extraordinária profundidade.
As melhores fotografias de Nan Goldin partilham uma capacidade em transmitir a complexidade do amor em termos bastante sucintos, que lançam uma interminável especulação sobre a vida e destino dos sujeitos fotografados.
Ao observar as suas fotografias não somos capazes de evitar sentirmo-nos compelidos a imaginar aquilo que cada pessoa viu, sentiu e pensou no momento em que Goldin soltou o obturador.
E não podemos deixar de equacionar questões como: “será que os sujeitos continuaram as suas acções em prol da fotógrafa? Será que nem se aperceberam da sua presença? Em que ponto os sujeitos se tornaram observadores, fazendo coincidir estas imagens com as suas memórias?”
Quando observamos fotografias onde surgem intervenientes em pleno acto sexual (hetero e homossexual), não podemos deixar equacionar a hipótese de a sua obra tender para uma certa perversão, um certo soft-core libidinoso voyeuristico entrando numa esfera privada de suprema intimidade.
Alguns autores referem que a fotografia de Nan Goldin nos toca em sítios, dentro de nós, que são vulneráveis. O seu trabalho relembra que a identidade não é uma condição mas sim – se quisermos por tal em palavras – uma busca permanente, e que ambas faces de uma moeda nos são familiares.
Desde os eventos fotográficos até uma visão fotográfica emerge uma identidade pessoal que já não é definida pela célebre frase de Descartes “Cogito, ergo sum” mas por uma extensão do corpo em próteses mecânicas e perceptuais.
As concepções de uma pessoa, auto-identidade, a natureza individual e humana não são automaticamente evidentes nem blocos de construção imutáveis com os quais a sociedade é construída.
No século XIX, Honoré Balzac tentou realizar com o seu projecto “La Comedie Humaine” uma síntese moral da cultura francesa sua contemporânea, Nan Goldin, desde a década de 1970 realiza uma síntese emocional da cultura contemporânea ocidental. Num momento em que a fotografia anedótica e auto-referencial (em particular) dominavam a arte contemporânea, observa-se o surgimento de um modo fotográfico que privilegia o sentimento.